O paradoxo de Luxemburgo
A falta de compliance no futebol tem um custo cada vez maior
Fonte: Globo Esporte1
O paradoxo de Luxa
Vanderlei Luxemburgo viralizou recentemente, minimizando o passivo de mais de R$2 bilhões do Corinthians e argumentando que o clube possui um ativo inestimável: 300 garotos na base do futebol, prontos para serem vendidos para a Europa como commodities de luxo.
O treinador indica que “quem fala que o Corinthians tá quebrado é porque não entende a gestão de futebol”. Com todo respeito à história do treinador, quem pensa assim entende pouco de comércio internacional e menos ainda de integridade.
Luxemburgo parte de uma premissa anacrônica, pela qual seria suficiente deter o ativo. Convenientemente, ignora que a remuneração desse ativo em mercados regulados, como o europeu, exige condutas de integridade.
Um clube endividado, sem controles internos e dependente da liquidação de potenciais talentos para alcançar uma suposta solvência, é um convite a desvios, fraudes e má gestão. O treinador esquece que, sem gestão de riscos e sem integridade, os ativos representam vulnerabilidade.
Isso porque o descontrole financeiro pode fazer com que o ativo seja vendido no desespero, a valores abaixo dos de mercado e com cláusulas abusivas. A esse efeito a literatura econômica dá o nome de fire sales.2
Além disso, mesmo que o Brasil fosse o celeiro de talentos que Luxemburgo retrata, corre-se o sério risco de reproduzir a lógica colonialista do Paradoxo da Abundância, segundo o qual o excesso de recursos naturais de um país origina baixo crescimento econômico no longo prazo.
A literatura mostra:
As atividades intensivas em recursos naturais, resultantes da abundância desses recursos, estariam associadas à baixa intensidade de inovações, à diminuta capacidade de gerar bons empregos, a saldos comerciais efêmeros que sobrevalorizam o câmbio, à concentração de renda, e até mesmo à corrupção.3
A integridade é condição existencial para o esporte
Para as organizações esportivas, a integridade é questão de sobrevivência e legitimidade. Um arcabouço de integridade que inclua gestão de riscos, códigos de conduta, canais de denúncias, auditorias periódicas, além de report financeiro e medidas de prevenção à lavagem de dinheiro, é o que tangibiliza o ativo e o insere na lógica comercial internacional.
Além disso, com a adesão do Brasil à Convenção de Macolin, o cenário internacional endureceu. Até porque a proteção da integridade está prevista no Art 1º da Convenção.4
O mercado europeu que Luxa tanto almeja exige que as operações esportivas se baseiem em estruturas de compliance, incluindo políticas de PLD/FT e responsabilização de clubes e empresas. Clubes que operam no improviso serão, invariavelmente, marginalizados ou penalizados, inclusive pelos crimes previstos na Lei Geral do Esporte.
Minimizar a dívida de um clube de futebol porque existe potencial de venda de jogadores é ignorar as exigências do comércio internacional, com grave risco operacional e reputacional.
GLOBO ESPORTE. Vanderlei Luxemburgo e presidente do Cruzeiro se reúnem em hotel no Rio de Janeiro. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/vanderlei-luxemburgo-e-presidente-do-cruzeiro-se-reunem-em-hotel-no-rio-de-janeiro.ghtml
Ver: SHLEIFER, Andrei; VISHNY, Robert. Fire sales in finance and macroeconomics. Journal of economic perspectives, 2011, 25.1: 29-48.
PAMPLONA, João Batista; CACCIAMALI, Maria Cristina. O paradoxo da abundância: recursos naturais e desenvolvimento na América Latina. Estudos Avançados, 2017, 31.89: 253.
COUNCIL OF EUROPE. Convention on the Manipulation of Sports Competitions. Article 1. The purpose of this Convention is to combat the manipulation of sports competitions in order to protect the integrity of sport and sports ethics in accordance with the principle of the autonomy of sport.


